Eu nunca soube porque eu escrevia. Desde que fui alfabetizada lembro eu escrevendo meus sentimentos em cadernos, depois versos, poemas, contos... Mas muitos antes disso, eu criava meus personagens. Não era necessariamente apenas amigos imaginários, eles existiam de verdade no meu mundo! Não entenda como esquizofrenia, mas é que eles tinham personalidade, seus outros amigos, local de nascimento, conflitos pessoais, voz, expressões e trejeitos próprios.
No começo, a maioria surgiu por influência da minha mãe que sempre me incentivou a dar nome às bonecas, construir sua estórias, regando minha imaginação e criatividade.
Pra mim era super natural todo aquele mundo criado, porém percebi que para as outras pessoas não era. Então comecei a guardá-los só pra mim; até que literatura me fez descobrir que eu não era anormal, existia mais pessoas que também criavam pessoas e histórias. E então eu passei a agregar ainda mais personagens ao meu mundo, que ficava cada vez melhor, através dos livros.
Sábado, ganhei um dos melhores presentes da minha vida de alguém que me conhece muito. O livro "Cartas a um jovem escritor" de Mario Vargas Llosa proporcionou-me enormes reflexões e autoconhecimento.
"Qual a origem dessa disposição precoce para inventar seres e histórias, que é o ponto de partida da vocação de escritor? Creio que a resposta: rebeldia. Estou convencido de que quem se entrega à elucubração de vidas distintas daquela que vive na realidade demonstra dessa forma indireta sua rejeição e crítica à vida como ela é e ao mundo real, bem como seu desejo de substitui-los por outros, fabricados por sua imaginação e desejos."
Claro! Os personagens eram os amigos que eu gostaria de ter. Um deles, Petronio Varela, era um gênio com PhD em física com apenas 12 anos. Outro, Douglas, um alemãozinho, eterna criança de alma pura. Todos eles eram muito mais interessantes que os meus amigos do mundo real.
Mario Vargas Llosa, obrigada pelas cartas. Paulo, obrigada por trazê-las até mim.